História

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Paulistano nascido em 1951, Próspero Albanese ainda hoje é considerado como “A Voz do Joelho de Porco!” e autodenominado “o pior vendedor de discos da história”. Sua trajetória é tão longa, controversa e cheia de detalhes absurdos que vale a pena ser contada…
Por não conseguir ler as partituras em suas aulas obrigatórias de acordeom exigidas por seu pai, o então garoto de oito anos de idade acabou se tornando baterista, já sentindo pulsar em suas veias e no fundo da sua alma uma estimulante sensação musical. Desde cedo, ele já chamava a atenção nas festas familiares ao manipular suas “baquetas” – na verdade, dois palitos de prata que funcionavam como espetos para prender azeitonas e outros aperitivos -, cujos suportes serviam como pratos de uma imaginária bateria. E não parou por aí: uma simples vassoura foi transformada em sua “guitarra”, por ele empunhada sobre mesas, cadeiras e sofás, tudo visando criar frenéticas tentativas de imitações de canto e dança de Elvis Presley.
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Logo no início dos anos 60, depois de ganhar uma bateria do seu pai, Próspero teve que conviver com o fato de ser penalizado por ele toda vez que seu boletim escolar apresentasse qualquer irregularidade – uma nota baixa ou alguma advertência por “barulho excessivo nas aulas” – da forma mais terrível para um garoto amante do rock ´n’ roll: sua bateria ficava trancada em um quarto por algum tempo. O mesmo aconteceu certa vez quando foi reprovado na escola, curiosamente na matéria de Música. De nada adiantou os elogios do professor/maestro da disciplina quando percebeu o pequeno Próspero, logo na primeira aula, marcando os compassos musicais com os pés. Isto sem contar a pequena surra que tomou do próprio pai por conta de um suposto “desrespeito às normas” do rigoroso colégio. Mesmo assim, passou grande parte da década tendo aulas particulares de acordeom, de dança – o twist foi uma febre naqueles tempos – e de bateria, claro.
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Ainda nos anos 60, foi um dos fundadores da banda Os Abrasivos, um trio instrumental inicialmente sem contrabaixista, seguido da pesada banda de rock Mona, que contava com os irmãos Pedro e Albino Infantozzi no baixo e na bateria, respectivamente – este último veio a se tornar um dos mais requisitados instrumentistas da história da música brasileira – e o guitarrista Fábio Gasparini, anos mais tarde conhecido pelo apelido de “Ted Gaz” ao integrar o grupo Magazine, liderado por Kid Vinil. Segundo Próspero, a banda MONA, esbanjava uma rigorosa interação musical entre seus integrantes e perante o então jovem público eufórico, fiel e amante dos repertórios das lendárias bandas inglesas da época.

Durante aquela década, Próspero também participou como baterista e vocalista de outras bandas, como o Hot Rock, que tinha como integrantes um músico que era um ícone da Jovem Guarda, o conhecido guitarrista “Bogô” (banda “Beatniks”) e também Rodolfo Braga, que posteriormente integraria uma das formações mais marcantes do início do Joelho de Porco.

No final de 1968, Próspero participou do IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record como “instrumentista cênico”: empunhando um berimbau, “acompanhou” Os Mutantes na apresentação da canção “2001”, composta por Rita Lee e Tom Zé, vestido com um paletó de smoking emprestado às pressas, que levou a comentários nos bastidores do tipo “como é que ele coube ali?”.

Em outubro de 1969, Próspero foi um dos responsáveis pelo surgimento de um dos mais míticos grupos do rock nacional: o Joelho de Porco, ao lado do cantor e compositor João Paulo Almeida, do guitarrista Fábio Gasparini e do contrabaixista Gerson Tatini. Nele, nosso rotundo herói tocava bateria e cantava.
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Na década de 70, ganhou uma nova bateria, mais caprichada no acabamento, encomendada a um conhecido proprietário (da família Roncon) de uma conceituada fábrica de instrumentos musicais (a cinquentária “Metalúrgica FIRS Roncon Ltda”, atualmente “PINGUIM Instrumentos Musicais” ou “Pinguim Drums”), ao mesmo tempo em que passou a percorrer salas de gravadoras, bastidores de programas de calouros, tocando e cantando em festas de aniversários, casamento, bares, pubs, festivais de música, clubes, feiras, exposições, escolas, pequenos e grandes teatros e palcos, muitos palcos, fossem improvisados, de médio ou grande porte. Foi também o tempo de gravar bateria, percussão e até mesmo fazendo vocalizações e locuções em jingles publicitários.

Na década de 70 (1972), Próspero participou como baterista e vocalista de outras bandas, como o “Hot Rock”, que tinha como integrantes um músico que era um ícone da Jovem Guarda, o conhecido guitarrista “Bogô” (banda “The Beatniks”) e também Rodolfo Braga, que posteriormente integraria uma das formações mais marcantes do “Joelho”.

Seu primeiro concerto de rock sob a rubrica “Próspero e Joelho de Porco” foi no Teatro Tuca, em São Paulo, cujo repertório deu origem ao icônico LP São Paulo 1554/Hoje. Este evento foi então produzido pelo saudoso “rocker management” paulistano, Carlinhos Pop Gouvêa, que, segundo Próspero, credita-lhe o mérito como um dos organizadores pioneiros de concertos de “Rock´n Roll”, entre as décadas de sessenta a setenta nos espaços paulistanos.

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Ainda como baterista e dividindo os solos vocais, com Conrado Ruiz no “Joelho de Porco”, Próspero participou da estreia da então nova formação desta banda, na extinta TV-TUPI, quando permaneceram por longo tempo no ar, o que causou surpresa até nos próprios integrantes do grupo, notadamente em Tico Terpins (1976). Sucederam-se então apresentações em diversos outros programas, como Almoço com as Estrelas (apresentado pelo então casal: Airton Rodrigues e Lolita Rodrigues, na extinta TV-TUPI – anos 70), Papo Pop (apresentado pelo saudoso disk jockey, locutor e apresentador Big Boy na TV Record), Perdidos na Noite (apresentado por Fausto Silva na TV Bandeirantes), Fantástico (entrevista individual do cantor – TV GLOBO – anos 80/SP), Jornal Nacional (TV GLOBO/SP – Maracanãzinho – anos 80), Cassino do Chacrinha (estúdios da TV GLOBO/RJ – anos 80), Mulheres (TV GAZETA/SP – anos 80) entre tantas outras (anos 80: extinta TV MANCHETE/SP – gravações realizadas no extinto Teatro Zácaro/SP e TVS/SP – várias gravações realizadas nos estúdios da empresa – ; MTV/SP – com gravação externa/SP e TV CULTURA/SP – com gravações internas e externas/SP).

Próspero chegou até a bancar o apresentador de TV junto com os outros músicos da banda no programa Vídeo Disco, da empresa Abril Vídeo e veiculado pela TV Gazeta em 1983. Isto não era novidade para Próspero, pois ele já tinha participado como baterista e, segundo ele se recorda, em uma cena da novela ”Antonio Maria”(1968/1969) na extinta TV Tupi, acompanhando um famoso cantor da época, Gilbert; talvez se tornando um momento representativo de uma das primeiras telenovelas do país nos idos dos anos 60.

Várias foram as situações engraçadas que o Próspero diz ter vivenciado com Joelho de Porco naquela época. Em uma delas, o grupo se apresentava no réveillon em uma luxuosa casa noturna paulistana, The Gallery, já nos anos 80, quando decidiu, às gargalhadas, interromper o show e sair do palco, sendo devidamente “homenageada” com dezenas de cubos de gelo jogados pela requintada plateia. Apesar disto, os músicos começaram aquele novo ano bastante satisfeitos com o generoso cachê antecipadamente pago pelo bem sucedido empresário paulistano proprietário daquele nobre “point” noturno, que muito possivelmente acabou se tornando um “ex-fã” da banda.

Em outra ocasião, temporariamente afastado do grupo e sendo apenas um dos espectadores de uma apresentação do Joelho de Porco no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Próspero foi convidado por Tico Terpins a subir ao palco e dar uma “canja”. Sua interpretação foi tão forte e exagerada nas emissões vocais que acabou estourando um dos alto-falantes do sistema sonoro do teatro.

Como a banda se apresentava bastante em teatros de São Paulo nos anos 70 – SESC Consolação, Anchieta, Brigadeiro, Treze de Maio e tantos outros /SP – não recusaram o convite para ser o show de estreia de uma então nova casa de espetáculos, a Pool Music Hall, mas com uma condição imposta pela equipe de produção da banda: que o palco fosse “blindado” por uma imensa rede de proteção. E mais loucuras aconteciam quando a banda se apresentava tanto em shows realizados ao ar livre naquela década, como na Concha Acústica do Parque da Aclimação e Festival Colher de Chá, em Cambé (PR), como nas apresentações feitas em ginásios imensos, como Moringão (PR), Ibirapuera (SP) e Maracanãzinho (RJ).

Em fevereiro de 1975, após a sua segunda fase no Joelho de Porco, Próspero participou como guitarrista e vocalista da banda que acompanhou o cantor Edy Star no Festival Abertura da TV Globo no Teatro Municipal de São Paulo, que interpretou a canção “Pirulito da Paz” (de Daniel Talquino e Pedro Frutuosa), ao lado de ex-companheiros de grupo Mona – Albino e Pedro Infantozzi -.
Em 1985, já em seu terceiro período com o Joelho de Porco, ele e a banda participaram do Festival dos Festivais da TV Globo nos ginásios do Ibirapuera e do Maracanãzinho, apresentando a canção “A Última Voz do Brasil”. Neste evento, que marcou uma fase da história musical deste país, seus compositores foram contemplados com o prêmio de “Melhores Letristas” do festival.
Em 1988, o Joelho de Porco teve o seu arranjador, o maestro Portinho, agraciado com o Prêmio Sharp na categoria “Melhor Arranjador” por seu trabalho no álbum Dezoito Anos sem Sucesso, no qual Próspero Albanese atuou como co-autor e co-intérprete.
O grupo chegou a gravar um videoclipe promocional do álbum Dezoito Anos Sem Sucesso, lançado pela gravadora Eldorado em 1988. Uma curiosidade é que, à época das respectivas gravações, todos os custos, então contratados junto a uma conceituada produtora atuante no ramo de filmagens, foram pagos, por uma das maiores redes varejistas de moda do mundo, em um sistema de serviços do tipo “parceria/permuta”. Até mesmo algumas apresentações musicais gratuitas foram feitas nos anos 80 em duas escolas paulistanas de ensino, sendo que um inusitado trio formado por Tico Terpins, Zé Rodrix e o próprio Próspero, sabe-se lá por qual motivo, lá fizeram dublagens de suas próprias vozes de maneira “graciosa”…
Em 1982, ele produziu o compacto simples The 60´s para o cantor, compositor, tecladista e arranjador João Paulo de Almeida, tendo ainda participado dos vocais em algumas das faixas do LP Recomeçar, que ele gravou posteriormente e lançou pela gravadora Som Livre.
Em 1983, Próspero foi o cantor solista da música-tema do espetáculo teatral Cloud Nine – Numa Nice, de Carryl Churhill, de autoria do saudoso e ex-companheiro de Joelho de Porco, o genial Zé Rodrix. Dois anos depois, ele voltou à baila como… modelo fotográfico! Próspero posou para a capa de uma importante revista de circulação nacional como sósia de um notório político daquela época.
Também naquele ano, Próspero fez backing vocals na canção “Adivinhão”, incluída no álbum de estreia do grupo paulistano Magazine, produzido por Peninha Smith e que tinha na formação da banda um velho companheiro: Fábio Gasparini.
A experiência em estúdio levou Próspero a utilizar vários canais para gravar todas as vozes da canção “Intimidade”, gravada pelo grupo paulistano Stay Puff no disco Deixe o Gordo em Paz, cujos integrantes eram obesos como o próprio Próspero era na época. O vocalista já frequentava um spa e fugia – ou pelo menos tentava – dos lanches dos bastidores, pizzas, sashis, sashimis e jantares em família após as gravações. Com esta mesma banda, Próspero participou do show Stay Puff e Convidados no emblemático palco da Sala Adoniran Barbosa no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo.
Foi então que Próspero entrou para valer no mercado musical publicitário.  Cantou em inúmeros jingles de rádios (89 FM, Rádio Cidade), revistas (Pop, em 1977), redes de fast food, sorvetes – este arranjado e produzido pelo iluminado maestro Armando Ferrante Júnior – e lançado exclusivamente em alguns países da Europa -, protetores solares etc.
Mas nem tudo foi alegria naqueles tempos. Próspero foi hospitalizado depois de se jogar ao público quando cantava num famoso programa televisivo “Cassino do Chacrinha” no Rio nos anos 80. Depois disto, foi convidado a integrar uma dupla vocal com uma saudosa cantora e ícone do movimento da Jovem Guarda: Silvinha. A dupla cantou uma única música em um concerto realizado ao ar livre no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Até hoje Próspero, fã confesso dela, se recorda com muito orgulho e emoção daqueles alguns minutos de performance, compartilhados com uma das vozes mais admiradas pelo público em geral e também no meio musical deste país.
Em outubro de 2005, Próspero participou do show Joelho de Porco Rock Club no SESC Ipiranga, durante a programação Rock ‘n’ Roll, o Cinquentão Brasileiro. Mas quatro anos depois, anunciou oficialmente o término do Joelho de Porco durante a apresentação que a banda fez na Virada Cultural de 2009, batizada como Tributo a Tico Terpins e realizada no “Palco do Rock” então montado em uma das famosas praças paulistanas. Próspero encerrou tudo com chave de ouro, principalmente pela presença de inúmeros “ex-Joelhos”, como os cantores Conrado Ruiz e João Paulo de Almeida, o baterista Franklin Paolillo e o contrabaixista Rodolfo Braga. Este show de despedida do “Joelho” foi antecedido da apresentação televisiva, na TV GAZETA (programa “Todo seu”, apresentado por Ronnie Von – 2009).
Em julho de 2012, Próspero (com sua nova banda) abriu uma das programações então elaboradas pelo Centro Cultural Vergueiro em comemoração aos 22 anos da mostra Sintonia do Rock.
Em janeiro passado (2013), Próspero lançou oficialmente seu primeiro disco solo, Esbaforindo Rock ‘n’ Roll (Dentre Flatulências Explícitas…), no teatro do SESC Belenzinho em São Paulo, inserido na Programação: “SONORIDADES – SÃO PAULO ROCK 70”; um trabalho produzido pelo multi-instrumentista, cantor, compositor, letrista e leal parceiro musical Guto Marialva. Isto levou o cantor a reiniciar os ensaios frequentes com a sua banda de apoio e preparar um novo repertório, que certamente vai incluir algumas canções do Joelho de Porco e trazer a presença de alguns ícones do rock ‘n’ roll como convidados, além de fazê-lo voltar a atuar também como intérprete, compositor, músico e produtor.
Próspero já iniciou as produções e as gravações um novo disco com aqueles que ele considera seus “mestres”, que são os ex-integrantes do grupo “MONA” (Infantozzi & Gasparini & Tatini); resgatando algumas das músicas que interpretavam em espaços paulistanos na década de 70.
Próspero também está produzindo e gravando vocais, no novo trabalho fonográfico,
do seu velho amigo, o cantor Willie (ex-Rádio Taxi).
Abaixo está a discografia do Joelho de Porco com a participação de Próspero Albanese e outros trabalhos avulsos:
* Se você vai de xaxado eu vou de rock and roll” e “Fly América” (compacto simples de 1973, lançado pela gravadora Sinter/Phonogran, como baterista e cantor solista);
*São Paulo 1554/Hoje (LP lançado em 1976 pela gravadora Crazy e relançado em CD em 1997 pela Movieplay);
* Saqueando a Cidade (LP duplo lançado pela gravadora Continental em 1983 e relançado em CD em 1997 pela Movieplay);
* Festival dos Festivais (LP lançado pela gravadora Som Livre em 1985, que contém a canção “A Última Voz do Brasil”, cantada por Próspero);
* De Quina Pra Lua (LP trilha sonora da novela, lançado em 1985 pela gravadora Som Livre, no qual Próspero comparece com a faixa “O Velho Silva”);
* Brasília – Strana Usech Crasok (coletânea lançada pela gravadora CBS exclusivamente na antiga União Soviética em 1986, na qual Próspero aparece com a canção “Tzares”);
* Dezoito Anos Sem Sucesso (com o Joelho de Porco, lançado em 1988 pela gravadora Eldorado).
Junho/2013.
Regis Tadeu

(Colunista e apresentador do Yahoo, atualmente no júri do Programa Raul Gil, produtor e apresentador da Radio USP, nos programas Rock Brazuca e Agente 93, escreve para o Blog Big Papa Records, foi Diretor de Redação e Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo, Batera e Teclado&Piano, crítico musical do programa Superpop, baterista e dentista).

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